Ainda Estou Aqui — os horrores da ditadura militar em 1971
- marcelly moreira
- 15 de nov. de 2024
- 6 min de leitura

O filme Ainda Estou Aqui, baseado na obra de Marcelo Rubens Paiva, que conta a história de sua mãe, Eunice Paiva, foi oficialmente lançado em todos os cinemas do Brasil. O elenco principal conta com estrelas como Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Selton Mello, Valentina Herszage, Antonio Saboia, Marjorie Estiano, entre outros.
Esses brilhantes atores atuam em uma trama que retrata a realidade da perseguição militar ao pai da família, Rubens Paiva. Interpretado por Selton Mello, o engenheiro civil e ex-deputado é retirado de sua casa em um dia comum, após diversos conflitos na cidade do Rio de Janeiro em 1971.
Antes do conflito central entre o exército e o ex-deputado, o cinema brasileiro é exaltado em cenas gravadas com câmeras antigas, que capturam momentos íntimos de uma tradicional família de classe média alta. As cenas emocionam qualquer espectador, especialmente quando acompanhadas da voz de Selton Mello narrando sobre sua filha mais velha, que está em outro país, e sobre a família comemorando uma conquista da menina. É a cena mais bonita de todo o filme.
Todos esses momentos são carregados de tons de despedida, drama e muita intimidade. Quem assiste ao filme sente uma vontade genuína de formar uma família grande, inspirada em cenas simples de amor familiar.
É evidente, nos olhares de Eunice, que a chegada do exército foi agressiva, e todos os sinais dessa tensão são percebidos e sentidos por ela. Mesmo que sutil, o desespero esteve presente o tempo todo. Após belos momentos em família, o filme atinge o ápice quando homens invadem a casa de Eunice e levam seu marido de forma agressiva. A trama se desenvolve de maneira dramática e sem respostas, tal como na vida real. Tudo gira em torno da mãe de cinco filhos, agora viúva, Eunice Paiva.
CONFLITO

Em meio ao sequestro e à morte de Rubens, Eunice e sua filha, Maria Eliana Paiva, são levadas a um quartel junto com seu marido, ainda vivo naquele momento. Lá, ambas sofrem torturas psicológicas e físicas, como privação de comida e de luz do dia, além de assédios sexuais sofridos pela menina mais nova (relatados apenas em entrevistas e não no filme). A menina é solta em 24 horas do quartel mas sua mãe foi interrogada por 10 dias seguidos com seus direitos afetados.
Após seu retorno, ela tenta buscar justiça e descobre que a mídia e diversas pessoas se recusam a se pronunciar ou ajudá-la a encontrar seu marido. Após várias tentativas e algumas pessoas dispostas a ajudá-la, ela decide vender o terreno onde Rubens planejava construir uma casa para a família e volta para São Paulo.
LUTO

O filme nos deixa com uma sensação de falta de detalhes e profundidade a respeito da morte oficial do personagem. Na cena em que a morte de Rubens é comunicada à sua esposa, isso se torna incrivelmente palpável — ou talvez não. Assim como na vida real, a ausência de um desfecho declarado ou de um corpo encontrado é evidente, tanto para a família quanto para os espectadores. A forma como a mãe segue em frente, tentando sobreviver com seus filhos, é comovente.
O que é o luto, senão uma luta constante contra a ausência? Mas o que fazer quando a ausência sequer é confirmada? Em uma das minhas cenas favoritas, uma das filhas pergunta ao irmão quando, de fato, o pai tinha morrido para ele. Ele responde que isso aconteceu muito tempo depois; já ela diz que foi quando chegaram a São Paulo, após o desaparecimento do pai.
O foco do filme não está nas crianças ou em suas lutas pessoais; é evidente que o objetivo é retratar o terror vivido pela mãe da família naquela época. A batalha da família por um documento que declarasse e oficializasse a morte de Rubens começa desde o início do filme e segue até o final, quando uma notícia na televisão esclarece que, possivelmente, seu corpo foi descartado em um local com outros diversos inocentes da ditadura.
VENCEDOR DO OSCAR?

Fernanda Montenegro atua de maneira fenomenal em uma cena final curta, mostrando o quanto o Alzheimer havia consumido a Eunice. Mesmo sem estar consciente, reconhecer o fim de sua luta pessoal apenas pelo olhar ao ver a notícia na televisão é uma atuação digna de prêmios.
As mulheres merecem ganhar todos os prêmios aos quais são indicadas e são merecedoras de cada indicação que receberam. O Oscar perderá grandes momentos se não der o prêmio a Fernanda Torres, assim como aconteceu com Fernanda Montenegro, indicada por Central do Brasil em 1999.
RESOLUÇÃO
Após 43 anos do desaparecimento, no dia 26 de maio de 2014, a Justiça Federal aceitou a denúncia formulada pelo Ministério Público Federal contra cinco militares acusados do envolvimento na morte de Rubens Paiva. Os réus foram acusados de homicídio triplamente qualificado, ocultação de cadáver, associação criminosa e fraude processual.
Eunice Paiva
A mãe da família,Eunice Paiva,se formou em direito e virou advogada respeitada por se engajar em lutas sociais e políticas. Em 1988 foi consultora da Assembleia Nacional Constituinte e em 1996, após 25 anos de luta,Eunice conseguiu que o Estado brasileiro emitisse oficialmente o atestado de óbito de Rubens Paiva. A mulher faleceu aos 86 anos, no dia 13 de dezembro de 2018.

Vera Paiva
A filha mais velha da família, Vera Paiva, é interpretada por Valentina Herszage e Maria Manoella. A personagem tem pouca história aprofundada, pois se muda logo no início do filme. Sua mãe a envia para outro país por medo de que ela se envolva em situações que pudessem colocá-la em perigo. Na vida real, Vera Paiva tornou-se psicóloga e integrou a Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, nomeada pela então presidente Dilma Rousseff em 2014. Rousseff, uma grande voz contra a ditadura, foi torturada fisicamente nos anos 1970, em Minas Gerais, e implementou projetos e comissões para relatar e trazer justiça às famílias que sofreram as consequências do regime militar. Em 2022, o ex-presidente Jair Bolsonaro encerrou a comissão pouco antes de perder as eleições para Luiz Inácio Lula da Silva.

Maria Eliana Paiva
A segunda filha do casal, interpretada pelas atrizes Luiza Kosovski e Marjorie Estiano, nasceu dois anos depois de Vera. Essa personagem teve um destaque maior, pois foi levada pelos militares junto com sua mãe por ser a filha mais velha morando na casa dos pais quando o pai foi levado. Ela ficou presa por 24 horas antes de ser solta. Anos depois tornou-se jornalista, editora de arte e professora.

Ana Paiva
Apelidada de Nalu, Ana Lúcia Paiva tem atualmente 67 anos de idade. Tornou se matemática e empresária. Mesmo depois de 40 anos do sequestro a mulher ainda sonha com um enterro digno para Rubens Paiva. A mulher foi interpretada pela Bárbara Luz.

Marcelo Rubens
O quase caçula e mais cômico menino da família, Marcelo Rubens, é interpretado por Guilherme Silveira e Antônio Saboia. Por ser novo, ele tem poucas interações com pessoas além de seu doce cachorrinho. Marcelo é o autor do livro Ainda Estou Aqui, que serviu como inspiração principal para a realização do filme. Após voltar a morar em São Paulo em 1974, Marcelo estudou engenharia agrícola na Universidade Estadual de Campinas. Em dezembro de 1979, quando tinha 20 anos, uma segunda tragédia atingiu sua vida: ao pular de uma pedra durante uma festa, ele bateu a cabeça no fundo de um lago raso e fraturou uma vértebra, ficando tetraplégico. Após tratamento intensivo com fisioterapia e terapia ocupacional, conseguiu recuperar a mobilidade das mãos e dos braços. Desde então, escreveu diversos sucessos literários e, atualmente, está com 65 anos.

Maria Paiva
Conhecida como Babiu, a caçula da família tem menos falas que seu irmão. Mesmo que os caçulas não tenham muitas falas, é nítida a confusão mental dos mais novos. Aos 64 anos de idade, Maria trabalha como psicóloga e professora. Olivia Torres e Cora Mora interpretam a personagem no filme.
Rubens Paiva
Rubens Paiva, interpretado por Selton Mello no cinema, era filho de Jaime Almeida Paiva, ex-prefeito, advogado, fazendeiro no Vale do Ribeira e despachante no Porto de Santos. Ele casou-se com Eunice, e juntos tiveram cinco filhos,já citados. Formado em engenharia civil em 1954, Rubens iniciou sua carreira política em 1962, quando foi eleito deputado federal pelo PTB (Partido Trabalhista Brasileiro). Com o Golpe Militar de 1964, seu mandato foi cassado, e ele precisou se exilar, passando pela Iugoslávia e França. Nove meses depois, partiu em direção a Buenos Aires, mas durante uma escala no Rio de Janeiro, pediu licença para comprar cigarros e aproveitou a oportunidade para embarcar em outro voo rumo a São Paulo, onde se reuniu com a família. De volta ao Brasil, retomou a engenharia e seus negócios, mantendo contato com exilados. Em janeiro de 1971, foi detido e morreu sob tortura entre os dias 21 e 22 daquele mês, devido aos ferimentos que sofreu.




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