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Uma grande sequência de tragédia: Pânico 7

  • Foto do escritor: marcelly moreira
    marcelly moreira
  • 2 de mar.
  • 4 min de leitura


O básico funciona? Quando você joga personagens interessantes no lixo para recriar uma nostalgia inteira baseada em FaceDeep/IA, a resposta é não. Pânico 7 é o mais violento e mais gore da saga, e isso é inegável. A abertura é boa, chama atenção, dá aquela sensação de que agora a coisa vai engrenar. As cenas de perseguição e assassinato são ágeis, tensas e bem executadas. Por alguns minutos parece que a franquia encontrou um novo caminho entre a metalinguagem e a dinâmica frenética. Depois disso, começa a desandar. O filme apresenta a vida de Sidney Prescott (Neve Campbell) depois de toda a tragédia que atravessou sua juventude. Agora casada com um policial, vivendo em uma casa grande que aparenta segurança, com uma filha adolescente e uma rotina aparentemente estável, a narrativa tenta vender a ideia de que finalmente existe paz. 


Tatum Evans (Isabel May), a única filha com presença real na trama, surge como qualquer adolescente rebelde. Questiona o passado, testa limites, mas demonstra pouco conhecimento direto sobre a história da mãe. Mesmo que não seja o ideal, quando ouvimos que a menina não tem a garra da mãe, pensamos imediatamente na personagem de Pânico 5, Sam Carpenter (Melissa Barrera), que se destacou justamente por ser diferente do padrão de vítimas passivas que a franquia tinha antes. Sam lida com alucinações do pai, Billy Loomis, e com o medo de se tornar aquilo que mais despreza, e essa luta interna, junto ao fato de que ela realmente age para proteger quem ama, a torna uma protagonista marcante e mais visceral do que a Tatum apresentada no filme mais recente. 



A Tatum não é a Sam. Não existe construção para um lado obscuro, não existe ambiguidade real. E isso pesa porque a melhor decisão dos filmes recentes foi justamente brincar com essa ideia de herança e trauma. Transformar uma vítima em possível vilã, trabalhar uma motivação pura e humana, era um caminho forte. Mas tudo isso foi descartado por motivos extremamente problemáticos de elenco, numa decisão que soa como um dos maiores tiros no pé dos últimos tempos.


A franquia que começou com Pânico sob direção de Wes Craven sempre funcionou porque sabia equilibrar metalinguagem e personagem. Agora parece confiar só na memória afetiva de rever as caras de Sidney Prescott e Gale Weathers-Riley, que estavam nos primeiros filmes. Como se repetir rostos conhecidos fosse o suficiente para justificar a continuação com palmas no cinema. E como se não bastasse isso, ainda insistem em trazer o nome de Stu Macher (Matthew Lillard) de volta à conversa. O primeiro Ghostface, o mais insano, o mais caricato.


Um personagem que funcionou justamente porque fazia parte daquele contexto específico dos anos 90, daquele exagero juvenil que combinava com o momento. Ressuscitar essa ideia, alimentar teorias ou usar sua imagem como muleta narrativa não acrescenta nada. Pelo contrário, enfraquece. Ficar puxando Stu como se fosse solução soa mais como desespero por nostalgia do que como construção inteligente. Sidney e Gale realizam bem os papeis performáticos de nostalgia em se entenderem e desentenderem com frequência, demonstrando um bom e consistente relacionamento. Gale tem uma participação emocional maior ao que se trata de trauma e recuperação, mostrando que a mulher nunca conseguiu recuperar após a morte do namorado dela em Pânico 6. Brooks é assassinado no apartamento de Gale enquanto ela está ao telefone com o detetive Wayne Bailey.


GHOSTFACE 7


A escolha de Anna Camp como nova Ghostface é curiosa. Conhecida por A Escolha Perfeita, ela performa intensidade, mas a construção repete um padrão que a franquia confortável em usar. De novo a mulher explosiva, de olhar arregalado e energia instável, lembrando o tipo de presença que Mikey Madison construiu em Pânico 5, e Emma Roberts em Pânico 4, novamente sem desenvolvimento ou qualquer camada que sustente a obsessão. Falta nuance. Falta um motivo que realmente convença. Interpretando a vizinha de Prescott, Jessica Bowden, aparece apenas 3 vezes antes da revelação. Contando uma história torta de como matou seu marido tóxico graças ao livro que Sidney escreveu, ela diz que ficou extremamente irritada quando teve que parar de perseguir a mulher por conta dos sumiços dela após Nova York (Pânico 5 e 6). Demonstrando irritação na vida parada de Prescott, a mulher decide que fará de Tatum, a filha da mulher, uma Sidney Prescott 2.0, fazendo dela a nova vítima de uma vida infeliz recheada de mortes e infelicidade. A mulher acredita que as histórias de assassinatos nunca acabaram enquanto a garota final não morrer.


A insanidade da mesma comina nas mortes de Hannah Turman (Mckenna Grace), amiga de Tatum, por estripamento, Lucas Bowden (Asa Germann), filho de Jessica, com sua cabeça empalada numa torneira de cerveja e Ben Brown (Sam Rechner), namorado de Tatum, motivado a esfaqueamento. Também temos a morte de Chloe, amiga de Tatum, (Celeste O’Connor), morrendo após cair sobre cacos de vidro, que a ferem no pescoço, Scott (Jimmy Tatro), esfaqueado na cabeça e Madison (Michelle Randolph), caindo em uma faca e depois sendo queimada viva. Um adolescente que ajudava nos bastidores da peça de teatro também morreu após levar facadas dos três Ghostfaces.


A trama gosta de explicar que Amber, no filme de 2022, era apaixonada pelos filmes da franquia dentro da própria narrativa, enquanto Jessica Bowden seria fascinada por Sidney Prescott, como se existisse uma diferença profunda entre venerar o massacre como fã e idolatrar a sobrevivente como símbolo. Já Jill Roberts, na trama de 2011, somente quer a fama de ter realizado todos aqueles atos. No fim, as 3 motivações se misturam na mesma obsessão rasa, mudando apenas o discurso.


Os outros dois envolvidos nas mortes são completamente descartáveis, não sendo dignos nem mesmo de citações. Mas para conhecimento público, Marco Davis, um auxiliar psiquiátrico, e Karl Gibbs, mais um assassino obcecado pela mitologia dos filmes fictícios Stab realizam os assassinatos junto a mulher. Como todos os Ghostfaces da trama, os três morrem no final do filme. Um por atropelamento no começo, outro após ser baleado e Jessica Bowden baleada por Sidney e Tatum.


No fim sobra violência coreografada, muito sangue e uma tentativa insistente de reviver o passado. Só que referência não carrega filme nas costas. Personagens interessantes sustentam a trama. Somente motivação carregam filmes deste estilo. E disso, o sétimo capítulo entrega bem menos do que poderia.

 
 
 

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