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‘Valor Sentimental’ é o melhor filme do Oscar deste ano

  • Foto do escritor: marcelly moreira
    marcelly moreira
  • 3 de fev.
  • 3 min de leitura


Valor Sentimental, dirigido por Joachim Trier, é um drama familiar construído a partir do silêncio, dos olhares e das emoções não verbalizadas. O filme se interessa menos por grandes conflitos explícitos e mais pelas fissuras sutis que o tempo e a ausência deixam nas relações familiares. Tratando também de forma leve um tema muito importante no dia a dia de todos, depressão e tentativas de suicídio.


O protagonista, Gustav Borg, interpretado por Stellan Skarsgård, carrega no olhar uma melancolia persistente misturada a uma teimosia quase infantil diante da forma como escolheu viver. Cineasta reconhecido, Gustav sempre colocou sua arte acima das responsabilidades emocionais como pai. Seu retorno à vida das filhas acontece apenas após a morte da ex-esposa, no velório que dá início ao filme e estabelece imediatamente o tom de desconforto e estranhamento entre eles.


A narrativa se passa majoritariamente na grande casa da família, um espaço carregado de memórias e ressentimentos, que funciona como extensão emocional dos personagens. É ali que as relações mal resolvidas vêm à tona, sem pressa e sem concessões ao melodrama. Nora Borg, interpretada por Renate Reinsve, é a filha mais complexa e emocionalmente ferida. Atriz de teatro, ela carrega uma melancolia profunda, dores familiares antigas e uma autoestima constantemente abalada.


Sua relação com o pai é marcada por ressentimento e distância, especialmente quando Gustav tenta se reaproximar através da arte, oferecendo-lhe um papel em seu novo filme. Nora é uma personagem que parece sempre à beira de um colapso silencioso, incapaz de separar o abandono paterno de sua identidade adulta. Suas relações pessoais são recheadas de caos, como seu namorado que até então é casado com outra mulher.


Em contraste, Agnes Borg Pettersen, vivida por Inga Ibsdotter Lilleaas, representa a filha que aparentemente deu certo. Casada, com um filho e uma vida estável, ela é mais pacífica e conciliadora. No entanto, o filme é cuidadoso ao mostrar que essa estabilidade não significa ausência de feridas. Agnes apenas aprendeu a lidar com a dor de forma mais silenciosa e funcional do que sua irmã. Mas ainda sente tudo que a irmã sente, usando somente outras ferramentas para seguir em frente.


A presença de Rachel Kemp, personagem de Elle Fanning, acrescenta uma camada interessante à narrativa. Como atriz convidada por Gustav para protagonizar seu novo projeto, ela se torna um espelho incômodo para Nora, reforçando a sensação de substituição e evidenciando como o pai é capaz de oferecer atenção e sensibilidade a estranhos enquanto falhou em fazê-lo com as próprias filhas.



Joachim Trier conduz o filme com extrema delicadeza, confiando na força das pausas, dos enquadramentos e das atuações contidas. O silêncio é o principal recurso dramático, e é nele que o filme encontra sua maior potência emocional. Nada é resolvido de forma simples ou definitiva, porque o interesse da obra está justamente nas ambiguidades das relações humanas.


Perto do final do filme, a revelação de que o roteiro que Gustav tenta realizar se baseia no suposto suicídio de sua própria mãe, um evento que o próprio filme insinua poder não ter acontecido, adiciona uma camada perturbadora à narrativa. Além de convidar sua filha Nora para interpretar essa mãe suicida, ele tenta trazer ao filme o neto para viver sua versão infantil. Ambos convites recusados em meio às relações frágeis e mal resolvidas da família.


Essa escolha ganha importância quando o espectador descobre que Nora, já marcada por uma depressão forte, tentou suicídio no passado sem que o pai jamais tivesse conhecimento direto. Tornando o projeto de Gustav não apenas um gesto emocional, mas uma exposição de traumas familiares e sensibilidade. Após ler o roteiro e Rachel Kemp desistir da obra, tanto Nora quanto o filho de Agnes aceitam realizar o filme.



Valor Sentimental é um filme sobre heranças emocionais, sobre o que permanece mesmo depois da morte e sobre como o amor familiar pode ser tão sufocante quanto necessário. Um retrato íntimo e doloroso de pessoas que compartilham sangue, memórias e ausências, mas que ainda lutam para se reconhecer umas nas outras.


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