"Black Mirror" voltou a ser como era antes?
- marcelly moreira
- 14 de abr. de 2025
- 7 min de leitura

A aclamada série antológica Black Mirror retornou no dia 10 de abril de 2025 com sua 7ª temporada, trazendo seis episódios inéditos que exploram as complexas interações entre tecnologia e emoções humanas. Esta temporada marca um intervalo de dois anos em relação à anterior, que contou com apenas cinco episódios e não conquistou totalmente a graça do público.
Entre os destaques, está a aguardada sequência do episódio "USS Callister", do 4º ano, que continua a história de Robert Daly e sua tripulação virtual. Jesse Plemons e Cristin Milioti retornam aos papéis principais, acompanhados por Michaela Coel, Billy Magnussen e Aaron Paul. Além disso, a temporada conta com um elenco estelar, incluindo nomes como Awkwafina, Peter Capaldi, Emma Corrin, Issa Rae, Rashida Jones, Paul Giamatti, Jimmi Simpson e Tracee Ellis Ross.
Os episódios abordam temas como a dependência de redes sociais, críticas ao sistema de saúde privado e reflexões sobre memória e identidade digital. Charlie Brooker, criador da série, promete uma variedade de tons — do perturbador ao emocional — reafirmando a relevância de Black Mirror no cenário atual da ficção científica televisiva.
PESSOAS COMUNS

A temporada abre com um casal aparentemente estável: uma professora e um trabalhador da construção civil, interpretados por Rashida Jones e Chris O'Dowd, que são o foco deste episódio. Em mais um dia comum de aula, a mulher sofre um problema grave de saúde que a deixa inconsciente. A tecnologia, já conhecida pelo público da série, surpreende quando uma mulher aparece oferecendo ajuda para salvá-la. Inicialmente, ela diz que o procedimento custará apenas 300 dólares, mas a situação rapidamente foge do controle. O restante da trama acompanha o esforço do marido para conseguir dinheiro e salvar sua esposa, diante dos constantes aumentos propostos pela empresa no pacote de tratamento. Desesperado, ele acaba se envolvendo até com um site em que pessoas pagam para ver outras sofrerem dores e humilhações.
Pessoas comuns, apaixonadas e cheias de negação. O homem preferiu sofrer as piores dores do mundo a perder sua esposa, sendo que ele ganhou apenas 2 ou 3 anos terríveis com isso. Não foram anos bons, agradáveis ou românticos — foram anos tenebrosos para ambos. Vale tanto assim viver?

A mulher não tem tanta profundidade no roteiro, e isso me interessava bastante. Será que ela queria tanto assim viver, enquanto repetia anúncios e dormia mais de 16 horas por dia? Ela queria que seu marido arrancasse os dentes por amor? Talvez fosse mais fácil nunca ter acordado.
A complexidade do episódio é super interessante. Ele me lembra alguns episódios da temporada que só nos fazem refletir — não existe muito plot ou dinamismo, mas é cru e humano, até demais.

A parte mais chamativa é, com toda certeza, o site, que não está longe de ser realidade em algumas comunidades por aí. Eles também não se aprofundam muito nisso, ou nas camadas dessa comunidade doentia. O final, com o homem entrando no quarto com o estilete e indo em direção ao notebook fazendo seu último show aos seus telespectadores é genial. 9/10
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BÊTE NOIRE

Maria (Siena Kelly), que é uma executiva de alto nível em uma companhia de chocolate, reencontra uma antiga conhecida (Rosy McEwen) em sua empresa, durante uma degustação de doces. A jovem de imediato se sente incomodada, pois lembra que ambas tiveram conflitos no ensino médio, quando estudaram juntas e a protagonista fazia bullying com a mesma. A trama parte do ponto em que tudo na vida de Maria começa a ruir: seu relacionamento, seu trabalho e até mesmo o que ela considerava realidade.
É um episódio difícil de entender as personagens. Na minha opinião, você não sente nenhum tipo de pena da vilã verdadeiramente e também não vê nenhum tipo de remorso verdadeiro da Maria. Ambas parecem cegas por ganância, ego e inveja.

Eu gosto bastante do episódio por ter tensão e mistério o tempo todo — é algo que me agrada demais. Dinâmico ao máximo e, comparado com o primeiro episódio da temporada, tem muito mais coisas acontecendo.
O plot de que a vilã cria realidades alternativas é legal, mas é viajado pra caramba. Entendo que a narrativa só podia ser essa, já que ela começou a enlouquecer a Maria de todos os jeitos não humanamente possíveis, mas acredito que, em geral, a formação dessa história poderia ser escrita de outro jeito.

Maria pedir pra ser a imperatriz do universo mostra que seu namorado estava um pouco certo sobre ela querer que todos "venerem" ela. Gosto da trama, mas nenhum personagem me parece profundo o suficiente. Eles poderiam ter feito um trabalho muito melhor com o bullying que a vilã sofria na infância. Ou até mesmo com os auges que a protagonista poderia chegar enquanto enlouquecia. 7/10
HOTEL REVERIE

Tenho pra mim que toda temporada eles fazem um episódio um pouco mais leve de violência, e esse é um deles. A protagonista interpretada pela Issa Rae, é uma atriz bem sucedida que está cansada de fazer filmes de ação. Ela vai atrás de uma proposta de refilmagem high-tech de um filme clássico. Mas essa proposta carrega uma ideia diferente de fazer filmes. A tecnologia transporta ela para dentro do filme, onde ela precisa seguir as falar se quiser voltar para a casa em segurança. Já que seu personagem corre risco de morrer a qualquer momento.
Trama similar a San Junipero, amor impossível e final quase feliz. Adoro a protagonista e gostaria de saber mais sobre sua vida antes de entrar naquele filme. Fico pensando: como alguém quase desiste de sua vida real pra viver dentro de um filme com uma mulher que ama muito?
Mas tudo no episódio é profundo e palpável. Simplesmente muito bom. Talvez ele nem tenha grandes reviravoltas, mas é super interessante ver a personagem da Clara tomando consciência e agindo como a atriz agiria — e não necessariamente como a personagem ou a IA.

Faltam muitas cenas de romance real entre as duas. Tudo o que vemos são algumas passagens rápidas e muito pouco diálogo. Seria interessante ver mais cenas engraçadas da protagonista explicando à Clara como era o mundo real, ou coisas do tipo. Química boa e roteiro excepcional. Todos os outros personagens do episódio são engraçados e trazem dinamismo pra história, tornando ela mais divertida ainda. 9/10
BRINQUEDO

Estrelado por Peter Capaldi , Lewis Gribben e Will Poulter a trama gira em torno de Cameron (Peter), um jornalista especializado em games. Obrigado por seu editor-chefe Colin (Poulter), ele aceita testar um novo videogame em que os personagens eram versões modernas dos “bichinhos virtuais” — febre dos anos 2000. Nesse jogo você devia cuidar de seu bando para que os mesmos se multiplicassem e cressem com os dados fornecidos. O protagonista, qual não parece muito adepto a interações humanas acaba ficando obcecado por esse bando.
Exatamente como o filme Black Mirror: Bandersnatch, o episódio falha em tudo que se propõe a fazer — seja drama, tensão ou choque com a tecnologia. Nada no episódio tem muita profundidade. Eles forçam a narrativa de jogo versus realidade e simplesmente não saímos do lugar. O protagonista é interessante, mas acaba caindo na mesmice quando sua única razão para matar o homem é uma pura insanidade. Mesmo que ele tenha uma razão, a gente não entende a motivação do bando e nem dele de acabar com o mundo. Qual é exatamente a razão ou o sentido de viver sozinho no planeta?

O policial e qualquer outro personagem são completamente descartáveis. Talvez esse seja o único episódio da temporada que não tenha plots interessantes. 6/10
EULOGY

Estrelado por Paul Giamatti no papel de Phillip, um homem solitário que é contatado pela empresa tecnológica Eulogy após a morte de sua ex-namorada, Carol. A proposta é que ele contribua para uma homenagem virtual, utilizando um dispositivo que permite literalmente entrar em fotografias antigas para reviver memórias. O homem alega não lembrar de nenhum rosto dela,o que dificulta bastante a vida do sistema de homenagem virtual, sistema esse, comandado por uma assistente virtual, qual não temos ideia de quem seja também. Dinâmica interessante, mas plot principal extremamente previsível. Fica claro para o público que aquela mulher (ou IA) era a própria mulher ou a filha.
O ator principal simplesmente dá um show de atuação em cada segundo. O episódio é feito para ser arrastado, mas tem uma direção de arte fenomenal. As cenas da mulher com rabiscos na cara, de perto, são perfeitas. É estranho que um homem que se apaixonou tanto por uma mulher não lembre do rosto dela. Ele não sentiu só amor, como também muita raiva e mágoa — surreal que não lembre da feição dela.

Ele era um namorado ruim, mas não acredito que fosse terrível como a filha dela faz parecer. Fora a traição, que foi devolvida, a trama não dá nada além de coisas subentendidas sobre os reais problemas dele — como álcool e outras coisas. Novamente, acredito que o episódio poderia ser melhor retratado, mas o que salva essa trama é o ator que interpreta o protagonista.7/10
USS CALLISTER - INFINITY

USS Callister: Infinity retoma o universo do episódio original com uma continuação direta e ambiciosa. Agora livres da tirania de Daly, os tripulantes digitais enfrentam um novo desafio: sobreviver em um multiverso online povoado por jogadores reais, trolls e inteligências artificiais imprevisíveis. A sequência expande o jogo Infinity como um espaço caótico e hiperconectado, onde as réplicas conscientes lutam por autonomia e relevância dentro de um sistema que ainda não reconhece sua existência como válida.
A crítica ao abuso de poder permanece central, mas ganha novas camadas ao abordar temas como direitos digitais, consciência artificial e cultura gamer tóxica. A figura de Daly continua pairando como uma sombra — mais silenciosa, mas ainda ameaçadora. Enquanto isso, Nanette Cole assume o protagonismo moral da trama, liderando a tripulação com mais empatia e inteligência estratégica do que o antigo "capitão", agora totalmente desestabilizado por sua perda de controle.

Visualmente, o episódio é deslumbrante, com uma estética que mistura o charme retrô de ficção científica com o caos visual dos jogos online modernos. Apesar de algumas soluções narrativas soarem apressadas, "Infinity" é uma continuação digna: menos sobre vingança e mais sobre o que acontece quando a liberdade virtual colide com a realidade — e os limites entre criador e criatura se apagam de vez. Um bom episódio para fechar com chave de ouro uma temporada pra lá de interessante. 8/10



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