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A Garota da Fita – 2 temporada sem alma

  • Foto do escritor: marcelly moreira
    marcelly moreira
  • 24 de jul. de 2025
  • 3 min de leitura

A segunda temporada de A Garota da Fita (também conhecida como The Snow Girl: The Soul Game) estreou em 31 de janeiro de 2025 na Netflix, com seis episódios intensos que mergulham Miren Rojo (Milena Smit) numa nova investigação cheia de tensão e segredos sombrios.


Logo no primeiro episódio, Miren recebe um envelope enigmático com a frase “Do you want to play?” e uma foto que faz referência à jovem Laura Valdivia, desaparecida há quase uma década. Pouco depois, o corpo de Allison Hernández, uma estudante exemplar da mesma escola, é encontrado brutalmente assassinado — e tudo parece indicar uma conexão perturbadora entre os dois casos.


A narrativa gira em torno do sinistro “Jogo da Alma” (The Soul Game), um desafio digital com tarefas suicidas, modeladas como ritualidades religiosas distorcidas. O jogo foi criado ainda nos tempos de colégio por Andrés Garrido, então estudante em Los Arcos.


Embora não tenha cometido diretamente os crimes, sua responsabilidade é inegável: ele deixou um sistema cruel em circulação e jamais se responsabilizou pelas consequências. A série acerta em mostrar como estruturas de poder e omissão podem ser tão nocivas quanto o ato violento em si.


Milena Smit entrega uma atuação visceral como Miren — uma jornalista emocionalmente devastada, mas ainda guiada por um senso de justiça inabalável. No entanto, é justamente essa carga emocional que causa ruídos em sua trajetória: Miren toma decisões impulsivas, se isola, se descontrola, e é julgada por isso.


O público parece esquecer que ela é uma jovem traumatizada, não uma super-heroína infalível. E é aí que reside a força da série: ao não idealizar sua protagonista, ela a torna mais real, mais humana.


Jaime Bernal (Miki Esparbé), seu novo parceiro, surge como contraponto emocional — mas acaba sendo pouco mais que um espectador. Gentil, sensível, mas passivo demais, ele acompanha o colapso de Miren sem confrontá-la, sem exigir nada em troca. O que poderia ser uma relação de parceria sólida, se transforma em um apoio silencioso, quase decorativo.


O grande choque da temporada vem com o desfecho: Nacho Valdivia, irmão de Laura, se revela como o novo condutor do Jogo da Alma. Ele assassina Allison e tenta repetir o ciclo com Miren. Suas motivações, porém, são vazias.


O roteiro o trata como um vilão perigoso, mas falha em desenvolver suas camadas. Nacho age como se tivesse uma doutrina, mas falta lógica interna ou profundidade emocional. Sua raiva parece surgir do nada e desaparecer com a mesma rapidez. É um personagem raso, gratuito e frustrante, cuja presença serve mais como um gatilho narrativo do que como um ser complexo.

Outro ponto alto, mas desnecessário, é a revelação de que Laura Valdivia está viva, vivendo isolada após anos de silêncio. A jovem engravidou do próprio sogro, com quem afirma ter vivido um relacionamento “de amor”, mesmo após ser acolhida por uma casa de apoio longe da família. A fala causa desconforto imediato: enquanto muitos tentam enquadrá-la apenas como vítima, a série opta por uma abordagem mais ambígua, levantando questões sobre consentimento, poder e manipulação emocional.


Em vez de explorar com profundidade o trauma de Laura, a narrativa deixa em aberto a possibilidade de que ela tenha desenvolvido uma Síndrome de Estocolmo, que é quando a vítima cria laços afetivos com o abusador como mecanismo de sobrevivência. Ainda assim, a série perde a chance de mergulhar nesse aspecto psicológico com mais seriedade, optando por retratá-la de forma distante, quase desconectada dos eventos principais.


A investigação policial, embora mais presente do que na primeira temporada, continua limitada por escolhas narrativas que priorizam o "choque" em vez da construção. O foco excessivo no Jogo da Alma, que se esgota rápido, empobrece a narrativa. Enquanto isso, temas muito mais relevantes, como a rede de pornografia infantil e o caso Slide, ficam apenas insinuados. Essa era a trama que realmente merecia o centro das atenções.


O final, no entanto, reacende a esperança de um retorno ao que realmente importa. A descoberta de arquivos comprometedores, envolvendo Cristina Ruiz, e vídeos que citam Miren, indicam que a próxima temporada poderá retomar o arco da denúncia e da investigação jornalística mais profunda.


The Snow Girl: The Soul Game é visualmente impactante e emocionalmente denso, mas desequilibra ao dar tanto espaço a um vilão inconsistente e a um jogo conceitualmente promissor, mas pobremente explorado. Seu maior mérito segue sendo a construção de Miren: falha, corajosa, emocionalmente exausta mas sempre humana.


 
 
 

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