O final estraga ‘Bugonia’, ou só é extraterrestre demais?
- marcelly moreira
- 19 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

O filme lançado no dia 13 de novembro, Bugonia, tem como protagonistas Emma Stone, Jesse Plenomes e Aidan Delbis. Com o IMDB de 7,5 estrelas (com 73 mil criticas) e 87% Tomatometer e 84% Popcornmeter no Rotten Tomatoes o filme se fez uma grande promessa do ano para o público. O filme se envolve numa trama de suspense com loucura, recheado de cenas de insanidade e agoniantes. Dois homens obcecados por conspirações alienígenas sequestram a CEO de uma grande empresa quando se convencem de que ela é uma alienígena, mandada de outro mundo que quer destruir a Terra.
O filme Bugonia (2025), dirigido por Yorgos Lanthimos, arrecadou aproximadamente US$ 38,7 milhões em todo o mundo, destacando-se com uma estreia robusta nos Estados Unidos e estabelecendo novos recordes para o cineasta. No entanto, sua performance no Brasil foi mais discreta, apesar do bom burburinho e da aprovação da crítica, sendo considerado um sucesso relativo em função do seu orçamento e do feedback positivo do público, conforme dados de outubro/novembro de 2025.
Um desses homens e a cabeça de todos os planos criminosos é Teddy, interpretado por Jesse Plenomes, que já protagonizou outros filmes parecidos, como, por exemplo: Tipos de Gentileza (Kinds of Kindness), Amor e Morte (Love and Death) e Guerra Civil e se apresenta, nesta obra, como um lunático. A falta de clareza nas ideias iniciais pode dificultar a compreensão da gravidade do caso para aqueles que não assistiram ao trailer, especialmente até o momento do sequestro.

O plano inicial é feito pelo Teddy e seu primo Don, que tem menos falas que o policial da trama que aparece na metade do filme 2 vezes. Don não tem nenhuma profundidade, mesmo aparentando ser mais velho parece um menino de 10 anos. Teddy o manipula para acreditar em suas loucuras e leva Don com um belo cúmplice que ao menos o refuta ou questiona sobre seus ideais.
O filme se constrói em 3 fases, e em cada uma delas temos a passagem de tela com uma bela piada de como é a mente de Teddy. Ao fundo temos a contagem de dias e a terra plana. A primeira fase demonstra que a Michelle, a futura vítima da dupla, vive sua vida de socialite normalmente, treinando bastante fisicamente e apresentando comportamentos de chefe arrogante e insuportável. Enquanto ela vive sua vida, a dupla já planeja a última etapa do sequestro. A compra de cordas, máscaras e tudo para realizar o crime acontece.
A cena do sequestro e do corte do cabelo de Michelle, é de longe a melhor do filme. Não tem muita crueldade e nem medo, já que a vítima segue desmaiada. Mas da para sentir que as cenas são apavorantes, caso vividas na vida real, por alguém que não tem tanto controle emocional quando Michelle. Don raspa todo o cabelo da mulher, pois, de acordo com o primo, o cabelo poderia entrar em contato com a nave mãe da alienígena. Ao acordar num porão, a socialite demonstra muito pouco medo. Até mesmo uma frieza de se estranhar com uma pessoa vítima de sequestro por dois homens nunca, até então, vistos. Ela tenta manipular o Teddy de algumas formas, alegando de fato ser alienígena, mas sua falta de detalhes e pouco argumento deixam o protagonista irritado.
Em certos momentos do filme esbarramos no personagem Ricky, interpretado por J. Carmen Galindez Barrera, um policial super estranho que tenta contato com o Teddy em diversos momentos. As interações deles sempre deixavam no ar que Ricky teria abusado de Teddy quando ainda criança. O policial era babá do homem na infância e pede desculpas pelo seu ato em alguns momentos da trama. Mesmo não sendo dito com palavras, a citação de abuso sexual é claro.
Mesmo com as agressões e até mesmo tortura de choque, a mulher se mantém forte e obstinada a manipular os homens para fugir. Após o tratamento de choque com a mulher, em mais um episódio lunático de Teddy, ele percebe que ela não é uma alienígena qualquer, e sim a chefe de todos os extraterrestres. Nesta situação, ele mostra consideração pela mulher, liberando-a para tomar banho e jantar com eles (mesmo que amarrada). No banho ela descobre o nome da mãe do homem. Alicia Silverstone, conhecida como Sandy.

Nesse momento, e só nesse momento o filme começa a fazer um pouco de sentindo. Descobrimos que Sandy fazia parte de um experimento dentro da empresa de Michelle, que buscava, hipoteticamente, fazer a mulher acordar de um coma, que parecia viver há muitos anos. Aparentemente, o experimento não deu certo e a empresa pagou uma indenização para a família, coisa que Michelle só lembrou quando viu o nome de Sandy numa toalha.
No mesmo dia, durante o jantar, eles parecem ter uma conversa agradável, nenhum problema aparente, até que a mulher cita o nome de sua mãe e pergunta se aquela era a motivação do sequestro. Teddy fica extremamente irritado e agressivo, ao ponto de tentar matar a mulher pela primeira vez, desde o começo do filme. Don tenta impedir os acontecimentos trágicos para os dois lados, mesmo não abrindo a boca, o menino se mostrava nervoso e ansioso.
O ápice do filme talvez sejam as cenas seguintes depois das agressões, o policial, já citado, aparece na porta dos dois homens, que naquele momento tinham uma mulher desmaiada na cozinha. Pela demora, o homem começa a dar a volta na casa, encontrando Teddy arrumando as coisas rapidamente. Em resumo de longas cenas, o policial tenta transformar aquele encontro em algo agradável enquanto faz perguntas sobre o desaparecimento da mulher, que agora está no porão acordando. Em meio a estes diálogos, o policial pede desculpas novamente pelas “coisas” feitas na infância com o protagonista e a mulher começa a prometer coisas ao Don diretamente.
Pela primeira e ultima vez Michelle e Don conversam. Em poucos minutos vemos que Don não consegue decidir se seu primo é louco ou não, se viver em sofrimento vale a pena ou não. Se Michelle é de fato extraterrestre ou não. Podendo fazer somente uma coisa para sua agonia acabasse, o homem atirou conta a própria cabeça. Mesmo o discurso suicida sendo óbvio segundos antes, a cena é bem impactante. Com o barulho de tiro, o policial Ricky, é morto por Teddy ao tentar ir atrás do acontecido. Morto por diversas abelhas e muitos golpes na cabeça.

A 3 fase, e última, talvez seja o real problema deste filme. As cenas são mais rápidas do que deveriam. Descobrimos um quarto, no porão digno de um assassino em série, com cabeças, mãos e diversas outras partes pendura em cordas e potes. A morte da mãe do protagonista depois que Michelle engana Teddy falando para ele injetar um produto de carro na corrente sanguínea da senhora, já frágil. Ao voltar para casa, a mulher consegue novamente manipular o homem, admitindo com honestidade que ela era de fato uma alienígena. Tudo muito rápido e mal feito.
Até então, Michelle se apresentava só como uma mulher muito forte e manipuladora, mas a cena mais insana da obra é voltar para e empresa com aquele homem do lado e as pessoas demorarem mil anos para chamar a polícia ou impedir a entrada do homem. A mulher estava desaparecida, era caso nacional. Como isso poderia ser possível? A demora da polícia é insana e sem sentido. Lá eles ficam em mais cenas entediantes sobre o ponto mais chato do filme, extraterrestres.
O fim do suposto lunático, Teddy, aconteceu supostamente pela bomba em seu peito ter explodido assim que ele entra no armário que seria a porta de acesso para a nave espacial que ele tanta procurava. A cena de sua morte é a mais gore do filme, com sua cabeça voando pelas portas do armário.
Era esperado o final não ser esse, era esperado que este filme não apresentasse tanta coesão na trama, até porque estamos falando sobre uma obra extraterrestre cujo foco é tratar sobre isso. Mas entregar aquelas cenas finais para o público é jogar 2 horas das nossas vidas fora. Michelle era de fato extraterrestre, era a chefe de todos, seu cabelo era um tipo de rádio/conexão com a nave mãe e de fato eles realizavam experimentos alienígenas com a mãe do protagonista, comprovando cada uma das dúvidas e loucuras do protagonista.
O filme talvez funcione para algumas pessoas que não tem tantos problemas com estes finais insanos e perto demais das ficções cientificas, mas para mim, é jogar fora algumas horas de vida com falta de lógica. Algumas obras constroem isso de maneira coesa e até agradável para quem não curte o tema, como o episódio de “Demon 79” de Black Mirror (temporada 6, episódio 5). Mas Bugonia não é um bom exemplo disto.

Durante uma sessão de perguntas e respostas, Emma Stone comentou o impacto da coincidência do filme Bugonia com o caso de Luigi Mangione: “Depois de terminarmos as filmagens, recebi a notícia de que um CEO de saúde havia sido baleado na rua acima da minha casa em Nova York. Era o caso do Luigi… foi surreal".
O caso de Luigi aconteceu quando o CEO Brian Thompson foi morto a tiros em frente ao hotel Hilton, onde participaria de uma conferência de investidores. Mangione foi preso cinco dias depois em um McDonald's em Altoona, Pensilvânia, após ser reconhecido por um funcionário. Relatórios indicam que ele sofria de dores crônicas severas na coluna (espondilolistese), o que pode ter influenciado sua revolta contra seguradoras de saúde. Nos escritos encontrados, ele descrevia as seguradoras de saúde como "parasitárias" e criticava a ganância corporativa.



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