Olympo: uma série que desperdiça seu potencial narrativo, salva apenas por Amaia
- marcelly moreira
- 3 de jul. de 2025
- 3 min de leitura

A série espanhola Olympo começa com um potencial interessante: o ambiente de um centro de alto rendimento, jovens atletas em busca da glória, e por trás disso tudo, um esquema suspeito envolvendo dopagem e corrupção esportiva. Nos primeiros cinco episódios, a narrativa se mantém envolvente e consegue entregar uma proposta que mistura tensão, crítica social e desenvolvimento psicológico. Mas o que se inicia com promessa, logo se perde em tramas mal desenvolvidas, personagens incoerentes e reviravoltas frágeis.
Amaia, interpretada por Clara Galle, é o ponto alto da produção. Sua personagem tem consistência, carrega peso emocional real e mantém o espectador conectado à narrativa, mesmo quando tudo ao redor se esfarela. Embora seja frequentemente rotulada como egocêntrica ou egoísta, é justamente ela quem mais se arrisca, quem mais investiga, quem mais sofre — sem que isso a torne cruel com ninguém. É acusada de invejosa por simplesmente desconfiar de uma mudança física absurda no namorado, Cristian — um questionamento legítimo diante do que é revelado ao longo da trama.
O mesmo não pode ser dito do trio responsável pelo chamado Olympo. Seus arcos são vagos, inconsistentes, e nenhuma de suas verdadeiras intenções é desenvolvida com profundidade. São figuras centrais que jamais se firmam na narrativa: não sabemos exatamente quem são, o que querem ou o que de fato estão protegendo. Quando a série se propõe a trazer um núcleo conspiratório, espera-se complexidade e articulação. O que vemos, no entanto, é apenas um vazio disfarçado de mistério.
As relações interpessoais beiram o absurdo. Conflitos intensos são resolvidos sem qualquer elaboração, como se reencontros fortuitos anulassem humilhações, mentiras e abusos. O relacionamento entre Amaia e Cristian é o exemplo mais claro disso: após uma sequência de manipulações e desconfianças, o reencontro ocorre como se nada tivesse acontecido. Isso compromete não só a credibilidade do casal, mas a seriedade da trama como um todo.

Cristian, aliás, protagoniza um dos momentos mais cruéis da temporada ao saber da manipulação conscientemente de um exame para desacreditar e humilhar Amaia publicamente. Um gesto frio e covarde — tratado pelo roteiro como se fosse um erro pontual. E é nesse ponto que a série comete seu maior equívoco: tratar atitudes graves como falhas emocionais passageiras, e não como sinais claros de caráter.
Zoe, uma das personagens com mais tempo de tela, também ilustra esse problema. Aponta constantemente o dedo para Amaia por “supostamente ter matado” uma colega, ignorando que ela própria se envolveu diretamente em um acidente grave — sob efeito de substâncias — que resultou na morte de outra atleta. Sua narrativa é repleta de hipocrisia e atitudes infantis, mas a série insiste em mantê-la em destaque, como se houvesse coerência em suas ações.

Roque, por fim, começa como um personagem promissor, mas logo se torna repetitivo. Sua sexualidade e insegurança são os únicos pontos explorados, como se ele não tivesse outras camadas. Mesmo sendo claramente um dos mais talentosos e focados entre os atletas, o roteiro o reduz a um dilema que não avança, não se aprofunda e se repete à exaustão.
No fim das contas, Olympo é uma série com ambientação interessante, temas relevantes e uma protagonista forte — mas que peca gravemente na execução. Personagens mal aproveitados, conflitos rasos e resoluções enfraquecem aquilo que poderia ser uma crítica contundente ao esporte de alta performance e seus bastidores. Amaia se destaca não porque seja perfeita, mas porque é a única que se sustenta com dignidade em meio a um elenco sabotado por um roteiro confuso e apressado.



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