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Pluribus: a utopia onde ninguém é ninguém

  • Foto do escritor: marcelly moreira
    marcelly moreira
  • 29 de dez. de 2025
  • 7 min de leitura

Sem individualidade somos mais felizes? É essa a pergunta que move Pluribus, nova série da Apple TV que chegou recentemente à plataforma e rapidamente gerou grande repercussão. Protagonizada por Rhea Seehorn e com criação de Vince Gilligan, a produção parte de um conceito simples e profundamente inquietante para discutir felicidade, pertencimento e, principalmente, o apagamento do eu. Vince Gilligan é um roteirista, diretor e produtor de televisão estadunidense, sendo mais conhecido por ser o criador da famosa série Breaking Bad, vencedora do Emmy de melhor série dramática em 2013 e 2014, e de sua série spin-off Better Call Saul.


O homem é conhecido também pela dificuldade de escrever mulheres, admitindo também que sempre tenta vencer isso. "Eu sempre me preocupo em escrever personagens femininas". Ele reconhece que, como homem, não tem a mesma vivência, e essa cautela o leva a ter mulheres roteiristas e diretoras bem representadas em suas equipes para garantir autenticidade. Alguns dos seus fãs alega que mesmo com mulheres roteiristas e diretoras o acompanhando suas obras ainda são rasas para tratar de mulheres. O projeto Pluribus marcou o início desse desmistificação, pois Carol, a personagem principal de Rhea Seehorn, é uma mulher lésbica e bastante complexa.


A trama se inicia quando um evento aparentemente inofensivo desencadeia o colapso do mundo como ele era conhecido. Um sinal codificado morse é enviado a uma equipe especializada nesse tipo de sinal extraterrestre, que posteriormente conclui que este sinal poderia ser uma mutação genética, a qual eles decidem investigar em seres vivos. Pouco tempo depois um rato de laboratório morde uma cientista em algum lugar do planeta e, poucas horas depois, toda a humanidade passa a se tornar uma coisa só. Não se trata de extinção, mas de fusão. Todos os seres humanos agora compartilham uma única consciência, um único pensamento, uma única existência. A ideia é apresentada como uma solução definitiva para os conflitos humanos, um estado de paz absoluta onde não há guerras, dores ou solidão. O preço, no entanto, é alto: a perda completa da individualidade, da essência, da alma e da personalidade.


Carol surge como um corpo bravo dentro dessa nova utopia. Imune ao vírus, ela se mantém isolada enquanto o mundo ao seu redor se dissolve nessa consciência coletiva. Desde o início, a personagem é apresentada como alguém de personalidade forte, sempre à beira da frustração profissional e afundada em um alcoolismo que parece tão grave quanto banal. Nada é explicado de forma direta, mas fica subentendido que Carol tem uma esposa, que também atua como sua gestora de carreira. Há uma ironia cruel em sua profissão: Carol escreve romances e fantasias voltados para mulheres heterossexuais tristes, oferecendo conforto através de histórias de amor idealizadas. O detalhe mais revelador é que o protagonista masculino desses livros é inspirado, na verdade, em uma mulher, reforçando o distanciamento entre a ficção que vende e a realidade que vive. Sua esposa morre durante o caos, não se sabe exatamente o porque mas algumas pessoas morreram diante da infecção.


Mesmo resistindo à nova ordem do mundo, Carol demonstra rapidamente o quanto o isolamento é insuportável. Sem esposa e sem ninguém o contato com Eles, como chama o restante da humanidade infectada, acontece cedo na narrativa. Ainda que negue a própria necessidade de conexão, o desespero por contato humano se revela já no primeiro episódio. Carol os xinga, os confronta e trama contra aquela consciência coletiva, mas, contraditoriamente, passa a chamar insistentemente por Zosia. Não pede pelo mundo de volta, pede por uma pessoa específica, por uma humanidade particular, mesmo sabendo que ela já não existe da forma como era antes.



Zosia, interpretada por Karolina Wydra, é apresentada como a face de todos eles. Ela não tem história própria porque é a soma de todas as histórias. É o mundo inteiro condensado em um único corpo. Conectada a todos ao mesmo tempo, Zosia é escolhida para cuidar de Carol por um motivo específico: sua aparência remete ao personagem masculino criado nos romances da protagonista. Acreditava-se que, dessa forma, seria mais fácil estabelecer uma ponte emocional e convencê-la de que aquela nova realidade era melhor. O encontro entre as duas carrega um desconforto constante, pois Zosia não é exatamente alguém, mas também não é apenas uma ideia. Ela existe e respira,mas não apresenta personalidade própria.


O episódio piloto se destaca como o mais honesto e bem executado da temporada. A direção e a dinâmica narrativa funcionam de maneira precisa e envolvente, conduzindo o espectador por um mundo que colapsa rápido demais para ser assimilado. A forma como o vírus se espalha é assustadora justamente por sua rapidez quase banal. Pensar que, no dia seguinte, já seria possível contabilizar o número de seres humanos não infectados torna tudo ainda mais perturbador. Não há tempo para reação, para resistência organizada ou para heroísmo. Há apenas adaptação ou exclusão.



Os episódios seguintes esbarram em uma lentidão que flerta diretamente com o tédio, o que pode afastar parte do público e até levar ao abandono da série. Mesmo arrastada, a narrativa se sustenta em Carol, que continua sendo o grande eixo da história. Com sua personalidade petulante e inquieta, ela passa a descobrir aspectos perturbadores daquela nova realidade, como o fato de Eles consumirem carne humana por se recusarem a matar animais ou comer qualquer coisa que venha da terra, além da constatação de que os outros onze sobreviventes estão confortáveis com a situação e não desejam assumir nenhum discurso heroico. Carol se move entre coragem e desespero na mesma intensidade, querendo derrotar todos ao mesmo tempo em que não suporta a solidão, o que fica evidente na relação com Zosia, já que, mesmo combatendo tudo o que ela representa, não permite que ela viaje com outros sobreviventes.


Em resumo, a protagonista se cansa de ser paciente, algo que nunca fez parte de sua natureza, e decide drogar sua então companhia, Zosia, na tentativa desesperada de descobrir mais sobre Eles e sobre aquela nova ordem do mundo. O plano dá errado e a punição é imediata: Eles abandonam a cidade de Carol, trazendo à tona seu maior medo, a solidão absoluta. O isolamento se prolonga por dias e a ausência total de contato empurra a personagem para um estado emocional cada vez mais instável, culminando em uma tentativa de suicídio que evidencia o limite de sua resistência.


Eles retornam não por preocupação com a sanidade de Carol, mas como uma estratégia calculada para ganhar tempo e tentar encontrar uma forma de convencê-la a se transformar em um deles, deixando claro que, mesmo diante do sofrimento individual, o objetivo final nunca deixou de ser a assimilação total.


Durante o período em que permaneceu completamente sozinha, Carol passa a gravar vídeos destinados aos outros sobreviventes, registros que nunca recebem resposta. Neles, relata a descoberta do canibalismo praticado por Eles e expõe o funcionamento distorcido daquela falsa moral coletiva. Ninguém responde e a Carol recobra contato com Eles como já citado.



Somente um homem resolve agir a partir dos vídeos. Manousos Oviedo (Carlos Manuel Vesga), um dos poucos imunizados que vive isolado no Paraguai, entra em contato com os registros deixados por Carol e decide atravessar o continente para encontrá-la. Após assistir aos relatos sobre canibalismo e ao pedido insistente por contato direto, ele abandona o isolamento e inicia uma longa viagem até a cidade onde Carol está. Manousos se apresenta como alguém que rejeita completamente a consciência coletiva e se recusa a qualquer tipo de comunicação com Eles, fazendo de sua decisão menos um ato heroico e mais um gesto humano de resposta ao desespero alheio.


Sua caminhada é longa e atravessada por gestos que oscilam entre o heroísmo e a imprudência. Manousos se machuca diversas vezes, recusa qualquer tipo de contato com os outros e chega a atitudes extremas para conseguir encontrar Carol. Enquanto isso, ela, desde o retorno de Zosia, parece viver em uma espécie de lua de mel, deslocada da realidade ao redor, como se aquele pequeno universo a dois fosse suficiente para silenciar o resto do mundo.



E é justamente aí que a série encontra seu ponto mais inquietante. Carol se apaixona por Zosia, a mulher que representa o mundo inteiro. A relação entre as duas deixa de ser apenas tensa e se transforma em um envolvimento sexual direto, íntimo, até que ambas passam a agir como um casal. O desconforto nasce dessa ideia simples: como alguém que carrega bilhões de pessoas dentro de si consegue se envolver romanticamente com uma mulher? Existe em Zosia alguma parte que realmente ama Carol ou tudo isso é apenas um reflexo coletivo, sem exclusividade, sem profundidade real? Após a união, Zosia ainda tem o poder de amar e desejar alguém de forma individual? E, talvez a questão mais perturbadora, como Carol consegue acreditar nesse vínculo, mesmo sabendo que divide aquele corpo, aquele afeto e aquele desejo com o mundo inteiro? Beira a insanidade.


Manousos percebe rapidamente que Carol não pretende ajudar em nada e, levado ao limite, também passa a agir de forma extrema, o que faz com que Eles reajam novamente de maneira quase birrenta, abandonando a cidade mais uma vez. Diante disso, Carol toma uma decisão definitiva: aceitar viver uma vida de enganação ao lado de Zosia. Mesmo que ela não seja um indivíduo, mesmo que não seja só dela, ainda é algo, e esse algo passa a ser suficiente. A série então se permite mergulhar em cenas recheadas de paisagens bonitas, silêncios confortáveis e uma negação constante da realidade, até que a protagonista inevitavelmente se choca com uma verdade incômoda. Eles nunca deixaram de procurar uma “cura” para Carol, nunca desistiram de assimilá-la, porque no fim das contas Eles continuam sendo Eles, enquanto ela permanece apenas sendo ela.



Esse choque se intensifica quando Eles relembram a sobre a cura brutal de uma das sobreviventes que escolheu se unir à consciência coletiva, talvez o momento mais forte e bem construído da série. Toda a bagagem cultural, afetiva e identitária daquela mulher se desfaz no instante em que ela se torna um deles, como se nada do que foi vivido antes tivesse qualquer valor. É nesse ponto que Pluribus escancara sua trama mais incômoda. Como isso pode ser felicidade? Como a anulação completa de cultura, afeto, medo e amor pode ser vendida como paz? A série não responde, apenas expõe o vazio dessa promessa e deixa a pergunta ecoando muito depois do episódio terminar.


Carol retorna para sua casa em um estado muito pior do que quando partiu e, pela primeira vez, aceita trabalhar com o homem para salvar o mundo. Não por esperança ou confiança, mas por exaustão de sua própria negação.


Pluribus não se limita a uma ficção científica sobre o fim do mundo. A série propõe uma reflexão desconfortável sobre o quanto da nossa infelicidade está ligada à individualidade e o quanto da nossa humanidade depende exatamente dela. Ao apresentar uma utopia onde ninguém sofre porque ninguém é realmente alguém, a série provoca uma pergunta difícil de responder. Talvez a paz absoluta exista, mas ela parece exigir o silêncio completo de tudo aquilo que nos torna humanos. Talvez seja arrastado demais para demonstrar exatamente como a vida seria sem caos e individualidade, um tédio completo.

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